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Litoral brasileiro: problemas sociais e ambientais

Por Ricardo Rose (*)

São poucas as praias brasileiras que ainda guardam sua beleza original. A ocupação de áreas litorâneas pouco habitadas aumentou bastante nos últimos quarenta anos, principalmente nas regiões Sul e Sudeste. Cidades praianas com baixa população até a década de 70, foram incorporadas às rotas turísticas pela abertura de estradas e tornaram-se os novos alvos dos fluxos migratórias internos, atraídos pelo crescimento da construção de imóveis.

Cresceu a população e também aumentaram os problemas com relação ao saneamento básico e ao lixo. Descarga de esgotos domésticos em córregos antes cheios de peixes e falta de aterros sanitários para o resíduo doméstico, continuam a ser deficiências de muitas cidades litorâneas brasileiras. A derrubada de áreas remanescentes de mata atlântica, o aterro de mangues e a destruição da vegetação de restinga são características desta desordenada ocupação do litoral brasileiro. Por um lado, a abertura indiscriminada de loteamentos sem qualquer infraestrutura, de outro a interdição e privatização de praias, beneficiando proprietários de grandes mansões. O pretenso progresso expulsou a população caiçara de muitas praias, para dar lugar a condomínios de alto luxo.

Este é com pequenas variações o quadro da ocupação do litoral brasileiro nos últimos anos. Destruição e descaracterização da natureza, promovida pelo ganho rápido e fácil, submisso aos interesses dos mais ricos e contando com a conivência da maior parte do poder político da região. As seguidas crises econômicas só vieram trazer mais problemas, diminuindo os recursos das prefeituras e deixando parte crescente da população litorânea sem perspectivas de encontrar um trabalho, aumentando os índices de criminalidade.

O turismo tem se tornado um peso ao meio ambiente de toda a região litorânea. A cada verão ou feriado, milhões de visitantes acorrem às cidades, aumentando a população e sobrecarregando o sistema de abastecimento de água e de coleta de lixo. O serviço de tratamento de esgotos não existe ou, na melhor das hipóteses, é insuficiente para atender ao volume da demanda. Com isso, são descarregadas toneladas de lixo em terrenos baldios e o mar recebe, através de córregos, milhões de litros de água poluída por efluentes domésticos. O problema já é tão grande que as areias das praias de muitas cidades estão contaminadas por microorganismos que atacam o intestino e provocam doenças de pele, olhos e ouvidos.

Com esta situação, segundo o Portal do Meio Ambiente (www.portaldomeioambiente.org.br) o Brasil não está listado entre os países que possuem algumas das 3.200 praias mais bem-cuidadas do mundo. Com tantas praias em nossos quase 8.000 quilômetros de litoral, é lamentável que nenhuma cidade litorânea (a pesquisa não inclui praias desertas) atenda aos parâmetros do programa Bandeira Azul, criado por uma ong que atua em 50 países, medindo as condições dos balneários. São vários os países, como a África do Sul, Marrocos e República Dominicana, – todos menos ricos que o Brasil – que investiram em saneamento básico e conscientização ambiental, colocando muitas de suas praias entre as melhores do mundo. Será que é tão difícil fazer o mesmo por aqui?

(*) Ricardo Rose – mambiente@ahkbrasil.com – é jornalista com especialização em Marketing e Meio Ambiente e diretor de Sustentabilidade da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha de São Paulo

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