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Pecuária verde: uma proposta para virar o jogo na Amazônia

Por Rogerio Ruschel, de Paragominas – PA

Sou jornalista especializado em meio ambiente e reconheço a veracidade das críticas feitas por ambientalistas aos danos gerados pela pecuária na Amazônia. Mas também conheço as estatísticas e sei que o mundo tem uma fome gigantesca por tudo – dos quase 7 bilhões de habitantes do planeta em 2011, cerca de 1 bilhão passam fome. Por isto creio que fui testemunha de um momento histórico para nosso país quando, dia 18 de agosto, ao lado de jornalistas, pecuaristas, políticos, pesquisadores e lideranças sociais, assisti à primeira apresentação pública dos resultados de um projeto inovador: a proposta de um novo modelo realista de pecuária para a Amazônia, apelidado de “pecuária verde”.

Neste dia, mais de 200 pessoas disputaram um lugar no Fórum Fundo Vale sobre Pecuária Verde no auditório do Sindicato dos Produtores Rurais de Paragominas, cidade do sudeste paraense, cerca de 300 quilometros de Belém. No evento, pesquisadores da Unesp e Esalq/USP (faculdades especializadas de São Paulo), dirigentes sindicais, gerentes de bancos, autoridades públicas e produtores rurais apresentaram os primeiros resultados do projeto de “pecuária verde” que vem sendo realizado no município há cerca de 1 ano.

O projeto – que foi mostrado na prática no dia seguinte, em uma visita técnica a uma das seis fazendas participantes – é resultado de uma mobilização bem sucedida (que tirou Paragominas da “lista negra” de municípios desmatadores do MInistério do Meio Ambiente – veja box nesta reportagem) e que se tornou modelo para o Programa Municípios Verdes do Estado do Pará, criado em março deste ano. Ao reunir o esforço politico da administração pública com a sociedade civil para promover o desenvolvimento local sustentável, a mobilização conta com recursos financeiros, técnicos e institucionais de ONGs como The Nature Conservancy, Imazon e Fundo Vale, produtores rurais, pesquisadores acadêmicos e organizações como a Dow AgroSciences e o Banco da Amazônia.

O jeito errado de fazer

Segundo dados da ONU, até 2050 a demanda mundial por alimentos crescerá 25% e projeções indicam que o Brasil poderá atender até 40% do volume total. O problema é como isso pode ser feito: horizontalmente (abrindo novas áreas de florestas) ou verticalmente (reaproveitando áreas degradadas e aumentando a produtividade). Cerca de 75 milhões de cabeças de gado estão na Amazônia – mais do que a população de toda a Europa reunida, e algo em torno de 52% da produção brasileira. A pecuária na Amazônia é dramática, não só porque provoca desmatamento da floresta, mas também porque é burra e malfeita: não oferece segurança jurídica, gera empregos que beiram o trabalho similar ao escravo e é impressionantemente improdutiva. Este conjunto de fatores já deixou cerca de 15 milhões de hectares de terras degradadas na região – área na qual o projeto de pecuária verde pretende investir porque considera desnecessário desmatar para criar novas fronteiras agrícolas. Segundo o professor Moacyr Corsi, da Esalq/USP, só o bom manejo de pastagens permite aumentar a produtividade média de 0,8 boi por hectare, para até 10 cabeças por hectare – um aumento gigantesco!

A pecuária aproveita, em média, apenas 9% do potencial de produção por hectare. Os dados são do professor Ricardo Ribeiro Rodrigues, pesquisador da Esalq/USP que acrescenta: “A agricultura brasileira tem uma perda de aproximadamente 1% do investimento, porque utiliza tecnologias de manejo do solo, controle de doenças, melhoria das espécies e conta com equipamentos que potencializam a produtividade. Já a pecuária tem, em média, cerca de 60% de perdas porque simplesmente não evoluiu: enquanto um plantador de soja, cana ou trigo usa pesquisa de ponta e colheitadeiras de até 1 milhão de Reais, o pecuarista simplesmente deixa os animais soltos no pasto, maltrata-os sem cuidados e utiliza equipamentos de apoio do século XV: cavalos.”

Uma nova abordagem

A proposta de pecuária verde em implantação em Paragominas pretende demostrar que é possivel conciliar a floresta com os bois, e para tanto, enfrenta os desafios de maneira organizada. O programa começa colocando os pecuaristas dentro da lei, com a regularização fundiária e ambiental – problemas crônicos na região Norte. Baseado em informações de satélite que permitem o conhecimento, a avaliação e o georeferenciamento das áreas, os fazendeiros, com a ajuda do Imazon e da The Nature Conservancy vem regularizando as propriedades, planejando ações – ambientais e de produção – e, com segurança jurídica, planejando investimentos.

A regularização inclui necessáriamente a emissão do Cadastro Agropecuário Rural (CAR) e da Licença Ambiental Rural (LAR) e o atendimento à legislação sobre Áreas de Preservação Permanente (APP) e áreas de Reserva Legal (RL) nas propriedades. Isto é fundamental para os pecuaristas, não só para a liberação de crédito, mas também para acabar com as multas ambientais, eliminar conflitos fundiários e acabar com a “pecha” de que, necessáriamente, pecuarista é desmatador.

Em menos de um ano o projeto realizou todo o levantamento fundiário do município e atualmente 97% das fazendas já estão regularizadas, ou em processo de regularização – as outras 7% serão punidas a partir de outubro. Seis destas fazendas se ofereceram para participar como pilotos da implantação do projeto, e como o professor Moacyr Corsi constatou, “estas fazendas tem apenas entre 0,35% e 1,40% das áreas ainda irregulares”.

O processo inclui a alocação de tecnologia, assistência técnica e pesquisa para aumento de produtividade; a adoção de um sistema de gestão da produção para fazer o óbvio em qualquer empreendimento empresarial: coletar e analisar dados, planejar metas e definir ações, eliminar gargalos de produção e distribuição e re-alimentar o processo com planejamento.

A adoção de procedimentos básicos de cuidados com o bem estar dos animais, uma especialidade do Professor Mateus Paranhos, do Departamento de Zootecnia da Unesp, é outra das medidas do projeto. Segundo o pesquisador, “Só isto de imediato, vai derrubar a impressionante marca de cerca de 20% de perdas de carcaças não utilizadas pelos frigorífficos, depois do abate”.

E finalmente, mais uma medida inteligente do projeto deve contribuir para o sucesso de uma pecuária mais sustentável. Ao invés de apenas punir os proprietários, está sendo proposto um novo enfoque para incentivar a regularização de APPs e Áreas Legais das fazendas: o enriquecimento destas áreas com espécies de valor econômico, frutíferas e medicinais, que em médio e longo prazo gerem receita adicional para os proprietários – o que é possivel por lei desde 1965 mas simplesmente não é utilizado. Como diz o pecuarista Mauro Lucio Castro Casto, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais e um dos participantes do projeto, “Vamos mudar a situação transformando o onus (os problemas legais das fazendas), em bonus”.

Agregando valor aos recursos

Mas apenas tecnologia não resolve o problema, é preciso o apoio do poder público. E mais uma vez Paragominas oferece uma solução modelar. O prefeito Adnan Demachki – premiado por sua atuação nos últimos anos – tem enfrentado todo tipo de inércia e preguiça do aparato público, uma “doença” bastante comum em municípios da região. Ele tem uma visão bastante clara do cenário: “Somente com a legalização das áreas, com investimento em tecnologia na atividade e em um ambiente jurídico que garanta segurança, Paragominas vai virar a mesa e realizar o potencial de alcançar um PIB per capita até cinco vezes maior do atual (que em 2008 foi de R$ 8.923,00). Paragominas cresceu horizontalmente e de maneira não sustentável; agora vai crescer verticalmente, porque vamos agregar valor a nossos recursos.”

O prefeito sabe o que diz, porque foi é uma das lideranças do processo de virada. Quando Paragominas decidiu trabalhar para sair da lista negra de municipios desmatadores da Amazonia, em 2008, iniciou um processo de fechamento de serrarias e atividades ilegais que quase quebraram o município. E o prefeito apresenta números, utilizados por inimigos para tentar destruir suas iniciativas: em 2008 foram 1.206 empregos perdidos e em 2009, 120 pessoas perderam o emprego – ou “sub-empregos”, como diz o prefeito. Já em 2010, com os primeiros resultados de uma nova política foram criados 2.105 empregos e em 2011 já foram gerados 1.726 novos postos de trabalho – e todos com carteira assinada e em atividades mais sustentáveis.

O assunto é complexo, mas o projeto reúne todos os recursos necessários para, na forma de parcerias impensáveis há pouco tempo atrás, permitir que a Amazônia possa se desenvolver econômicamente sem perder sua importância ecológica. E para que nós possamos comer um bom bife sem o risco de estar mastigando um “boi pirata” como qualificado pelo Greenpeace.

Como Paragominas saiu da lista negra

Fundado por colonizadores pioneiros antes da construção da rodovia Belém-Brasília no final da década de 50, e transformado em município autônomo em 1965, Paragominas foi literalmente “invadido” por pecuaristas de Minas Gerais, Espírito Santo e Goiás e por especuladores de terra de São Paulo.

A competição entre camponeses e “grileiros” que emitiam títulos falsos de propriedade (e os defendiam literalmente à bala) fez com que este extenso município (com quase 20 mil Km2 – área um pouco menor do que o estado de Sergipe), atualmente com cerca de 100 mil habitantes, durante seus primeiros 40 anos ficasse conhecida como uma “terra sem lei”, com assassinatos por terras, conflitos fundiários e desmatamento ilegal em nome do avanço da pecuária extensiva e predatória.

Em 2008 Paragominas entrou na lista negra do Ministério do Meio Ambiente de cerca de 40 municípios que mais desmatavam na Amazônia, o que levou à proibição de concessão de crédito rural para os fazendeiros, a punições de todo tipo e práticamente levou os produtores e a economia do município à beira da falencia, já que as duas principais atividades econômicas eram a pecuária e o extrativismo da madeira. “A cidade era conhecida como a síntese da destruição da Amazônia”, diz Adnan Demachki, prefeito reeleito. Para ele, alguns dados eram alarmantes, como a a insegurança jurídica, a falta de um bom ambiente para os negócios (que só atraía foras da lei), o tratamento deseumano dos empregados e a falta de crédito para a propriedades no município.

Pois a comunidade decidiu reagir. A partir de 2009 o prefeito afastou os preconceitos e foi buscar apoios e recursos dentro e fora do municipio. Ouviu o ponto de vista dos produtores, mobilizou a sociedade, propôs políticas públicas, aceitou a ajuda de ONGs e começou a mudar a maneira de perceber a realidade e o futuro do municipio. Toda ajuda foi bem vinda, e o processo inicial de mobilização recebeu um apoio muito importante ao passar a integrar o Programa Municipios Verdes, realizado em várias localidades amazônicas pelo Fundo Vale.

O Fundo Vale – organização de investimento social privado da Vale SA com foco no desenvolvimento sustentável da região amazônica – vem viabilizando investimentos em tecnologia, gestão e inteligência especializada para a “virada da mesa”. E os resultados apareceram no inicio de 2010, quando Paragominas foi a primeira cidade a ser retirada da lista negra de municipios desmatadores do MMA. Mirela Sandrini, gerente do Fundo Vale, acredita que o modelo de Paragominas “é uma alternativa inteligente para conciliar proteção do meio ambiente e desenvolvimento socioeconômico, respeitando a vocação do local” e pretende ajudar a exportá-lo para outros municipios do Pará e outros estados da Amazônia. O que, aliás, já está sendo feito.

 

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12 comentários para “Pecuária verde: uma proposta para virar o jogo na Amazônia”

  1. Interessante,pois conta sobre a sustentabilidade verde do pais

  2. Eu achei o texto interessante, pois mostra a importância da sustentabilidade e quanto estamos cegos sobre a natureza, mostra também sobre como a agricultura causa números de perdas. Parabéns sobre esse assunto.

  3. Matheus Henrique Gomes Marques disse:

    Eu gostei muito porque está falando sobre meio ambiente e eu gosto do meio ambiente então nota 10 para este site

    abraços
    Matheus

  4. Rafaella e Laene disse:

    Nós achamos o texto bem escrito e interessante.Um assunto importante para o Brasil.Principalmente sabendo que cerca de 75 milhões de cabeças de gado estão na Amazônia.

  5. O texto relata que para ter uma vegetação
    melhor é preciso plantar alimento para o gado,a proposta de um novo modelo realista de pecuária para a Amazônia, apelidado de “pecuária verde” que coloca uma grande oportunidade de segurança aos animais que são mortos por pessoas á caça.

  6. daniel junio magalhaes e cayo disse:

    A pecuária vai ajudar na amazônia ajudando o meio ambiente na amazônia a pecuária ajudaria a criação de gado,que na Amazônia 75 milhões de cabeças de gado
    morrem.
    Então eu gostei muito deste site
    abraços Daniel .

  7. norma disse:

    Interessante,pois o assunto retratado é de grande importância para o mundo;sendo que em vez de devastar outras terras a reutilização de terras e a respeito da pecuária venho observando os maus tratos sobre o gado não só leiteiro mas como também equino e acho que isso tem de melhorar.

  8. Rafael disse:

    Esse texto foi muito educativo,pois aprendi sobre o desenvolvimento sustentável.

  9. Norma disse:

    Nós achamos interessante, e é uma alternativa inteligente para conciliar proteção do meio ambiente e desenvolvimento socioeconômico.
    :D

  10. Nós achamos muito legal o trabalho. É um jeito legal de preservar a natureza eu adorei o documentário :) (nicole). Também achei muito interesante a maneira de aprender lendo o texto e dando minha opnião:)(camille).

  11. Karoline e Drielly disse:

    Nós achamos o texto educativo para todas as idades,adoramos o conteúdo do texto (sustentabilidade)e achamos bem elaborado.

  12. norma carolina disse:

    Este texto sobre pecuária verde é interessante. Foi falado sobre o aumento de cabeças de gado e eu achei que aumentou muito e acho que devia diminuir.

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