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Produtos mais sustentáveis: o objetivo final da economia verde

Por Rogerio R. Ruschel (*)

A existência de uma economia verde pressupõe um ambiente normativo incentivador, um modo de produção com foco em melhores práticas, consumidores com mais consciência e, óbviamente, produtos mais sustentáveis.

Por produtos mais sustentáveis entende-se genéricamente produtos que ofereçam benefícios socioambientais tangíveis como biodegradabilidade, com insumos naturais, feitos com matéria-prima reciclada, com redução de embalagens, atóxicos, com valores éticos como a não realização de testes em animais, produzidos com menos energia ou com menor volume de água, orgânicos, sem produtos químicos e com redução de emissões de CO2.

Produtos mais sustentáveis também estão relacionados a ações empresariais focadas em causas locais ou globais, tais como o incentivo ao empreendedorismo juvenil e o comércio justo, que proporcionam geração de renda e emprego para parcelas sociais com limitação de acesso ao “mundo dos negócios”, algum tipo de economia ao cliente e resultados financeiros para organizações sociais. Muitos produtos da Natura – especialmente a linha Ekos – pratica este conceito há muitos anos. E estes benefícios devem ser preferencialmente certificados por um agente externo com credibilidade pública.

Trata-se de um conceito abrangente que vai provocar intermináveis debates de base emocional ou científica. Mas de qualquer maneira o caminho se faz andando e produtos mais sustentáveis já estão nos supermercados, feira livres, nas cadeias de fornecimento de insumos e em lojas – reais ou virtuais – acompanhados ou não de greenwashing, a alegação pública de um benefício socioambiental não comprovado ou não relevante para o consumidor.

Insumos industriais com benefícios ambientais são o alvo de corporações globais e pequenas empresas “de nicho”. Um exemplo tupiniquim é o da brasileira TerpenOil, empresa de tecnologia orgânica que vem produzindo produtos de química fina baseado em terpenos e suas formulações. E um exemplo  global é o da Dow, que, entre outros produtos, desenvolveu uma pá de gerador de energia eólica mais sustentável – isto é, um produto mais sustentável para uma atividade mais sustentável, a produção de energia limpa.

O setor financeiro tem produtos como seguros, fundos de investimento e linhas de financiamento com este escopo. Para tangibilizar estes benefícios para o cliente, os bancos buscam alternativas como o Cartão Bradesco Fundação Amazônia Sustentável, lançado em 2008, o primeiro cartão de crédito produzido a partir de PET reciclado pós-consumo.

Outros produtos contribuem com a preservação da biodiversidade – e um exemplo mais próximo é o da Apis Flora, empresa de Ribeirão Preto – SP, que está desenvolvendo dois produtos para o tratamento de queimaduras à base e celulose bacteriana e própolis, um derivado da criação de abelhas – que, como sabemos, são os insetos que polinizam flores e frutas.

Fabricantes de papel e celulose já têm, como parte obrigatória do negócio, a certificação externa do manejo correto de florestas e agora investem em produtos certificados com redução de emissões de Carbono e com menor consumo de água – a “pegada hídrica”, proposta pelo pesquisador holandês Arjen Hoekstra.

Com base em pesquisas sobre o comportamento do consumidor, empresas líderes criam programas de avaliação dos produtos que fabricam ou comercializam, e buscam transformar a oferta de produtos mais sustentáveis como diferenciais competitivos. A Timberland, por exemplo, criou seu Green Index Label, que classifica seus próprios produtos a partir de três critérios: emissões de carbono, utilização de produtos químicos e consumo de recursos. O Greenpeace avalia e monitora regularmente diversos setores industriais – e denuncia desvios. Fez isso com o “boi pirata”, que vem provocando investimentos da cadeia produtiva da pecuária para evitar o desmatamento do bioma amazônico, e anualmente avalia o desempenho ambiental de produtos eletrônicos, considerando critérios como a existência de substâncias tóxicas, o consumo de energia e a durabilidade de materiais de computadores, monitores e televisões e aparelhos celulares.

A batalha nos supermercados

 

Mas a grande batalha está mesmo nos supermercados, locais preferenciais de abastecimento das famílias.

 

O Grupo Pão de Açúcar saiu na frente com o Caras do Brasil, um programa de comercialização para pequenos produtores de alimentos e artesanato com manejo sustentável, incentivando o comércio ético e solidário, a geração de renda, o respeito ao meio ambiente e a inclusão social. A rede ainda oferece o selo Qualidade desde a Origem, aplicado na cadeia produtiva de frutas, legumes e verduras, que oferece ao consumidor garantia de qualidade através da rastreabilidade do produtor.

 

O Carrefour oferece o selo Garantia de Origem para vários produtos produzidos de maneira ecológica e comprados por preço justo e a Linha Viver, marca própria de produtos mais saudáveis, que certifica cerca de 300 produtos entre frutas, legumes e verduras orgânicos.

 

Mas a iniciativa de maior repercussão por envolver 21 grandes fabricantes foi do Walmart, com duas edições do projeto “Sustentabilidade de Ponta a Ponta”.  O supermercadista propôs que, partindo da análise do ciclo de vida de seus produtos – da matéria-prima ao descarte – as empresas promovessem alterações significativas em produtos líderes, buscando reduzir impactos socioambientais, sem que o produto final tivesse aumento de custo para o consumidor.

Os produtos que integraram o projeto na primeira edição (junho de 2009) foram o achocolatado Toddy Orgânico, a linha de águas Pureza Vital da Nestlé, o amaciante Comfort Concentrado, o Band-Aid, o desinfetante Pinho Sol, a esponja de banho Ponjita Naturals Curauá, a fralda Pampers Total Confort, o Matte Leão Orgânico, a linha de óleos vegetais Liza e o sabão marca própria TopMax, do Walmart, feito de oleo de cozinha reciclado. O resultado: os produtos tiveram um aumento médio de vendas de 40% em 12 meses, conforme informado pelo programa Cidades Sustentáveis da Globo News e radio CBN.

 

Já da segunda edição (lançada em julho de 2011) participaram o Danoninho, o guaraná Antárctica, a bala refrescante Halls, o papel higiênico Neve Naturali, a linha de shampoos da L’Óreal, o alimento para gatos Whiskas, um aparelho de TV LED de 32 polegadas da Philips, o Veja Perfumes Sensações, o Papel Toalha Snob, o Café Pilão Origem, o Pato Pastilha Adesiva, o Refrigerador Inverse Viva da Brastemp e a marca própria de aveias Sentir Bem do Walmart.

Os resultados são espantosos. Investindo em pesquisa e inovação com a visão do ciclo de vida do produto – e monitoradas pelo Centro de Tecnologia de Embalagens – CETEA, o mais importante centro de pesquisa de embalagens e ciclo de vida da América do Sul – as empresas obtiveram redução de custos e qualificação generalizada dos produtos e do processo produtivo e de logística. Somente com a venda no Walmart por 12 meses, os resultados auditados pelo CETEA foram:

  • energia: economia equivalente a de 8,03 milhões de lâmpadas de 100W acesas 24h por dia
  • água: economia de 2.400.000 litros
  • embalagens: redução de 79,4 toneladas de massa de embalagens
  • resíduos industriais: redução de 250 toneladas de residuos
  • transportes: economia variável entre 32% e 64% a mais de produtos transportados por caminhão
  • emissões de CO2: redução de emissões de gases de efeito estufa de 3.171 toneladas, o equivalente a uma economia de 17,3 milhões de Km rodados
  • combustíveis: redução de 232 mil litros de óleo diesel

Produtos mais sustentáveis são a base para uma economia verde. E a boa notícia é que serão cada vez mais pesquisados pelos fabricantes porque já está comprovado que a sustentabilidade reduz custos em uma visão de médio prazo e oferece produtos preferidos pelos consumidores, a curto prazo.

(*) Rogerio Ruschel – rogerio@ruscheleassociados.com.br – é diretor da Ruschel & Associados Marketing Ecológico, editor da revista eletrônica “Business do Bem – Economia, Negócios e Sustentabilidade” – e autor ou editor de 23 publicações sobre o tema.

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