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Dia Mundial do Meio Ambiente: o que há para se comemorar?

Por Márcia dos Santos Pimenta, jornalista

Datas comemorativas, como o próprio nome diz, existem para celebrar e estimular novas conquistas. Confesso que tive dificuldades em enumerar conquistas no que se refere ao meio ambiente no Brasil, pois os retrocessos são enormes. Quem luta pelas questões socioambientais, luta para não cair no pessimismo e busca transformar indignação em ação.

No ano passado, a sociedade foi às ruas por melhores condições de transporte. A perda de qualidade de vida com os engarrafamentos, que paralisam as grandes cidades, traduz-se em perda de tempo e produtividade, problemas respiratórios devido à poluição, impermeabilização do solo e menos espaço para o lazer dos cidadãos. O esforço da sociedade culminou com a proposta do governo federal de aplicar R$ 50 bilhões do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC em mobilidade urbana. A imobilidade dos tomadores de decisão fez com que a proposta não saísse do papel. Totalmente na contramão da ambição da sociedade, o governo planeja diminuir impostos para estimular a venda de carros, enquanto a tributação sobre as bicicletas faz com que as “magrelas” brasileiras sejam umas das mais caras do mundo.

Enquanto isso, o mundo aquece. O 5º relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas lançado em março adverte: o impacto do aquecimento global será “grave, abrangente e irreversível”. Impacto nas colheitas, aumento de desastres devidos aos fenômenos climáticos extremos, como enchentes e as secas que afetam a disponibilidade de água para milhões de pessoas. Essas previsões não acontecerão num futuro remoto. Elas já estão presentes.

O noticiário nacional se transformou num boletim ambiental e você nem reparou. As regiões CO e SE foram duramente impactadas pelo desequilíbrio do regime de chuvas. A floresta amazônica, responsável pela formação dos rios voadores que trazem a umidade para estas regiões, impactada pelo desmatamento para dar lugar a soja e à pata do boi, não consegue mais dar conta dessa função. O impacto constelou para a sociedade em forma de falta d’água na região mais rica do país, São Paulo. O Sistema Cantareira alcançou o nível mais baixo da sua história, deixando os paulistas sem água para consumo e prejudicando atividades produtivas.

O sistema de abastecimento de energia do país foi afetado, pois 65% da energia gerada no país são de fonte hidrelétrica.  A falta de planejamento e investimento em energias renováveis fez com que o governo federal lançasse mão das termelétricas, muito mais poluentes e caras. Adivinha quem vai pagar essa conta?

Nossos tomadores de decisão não fizeram o nexo causal. Pelo contrário: aumenta a pressão desenvolvimentista sobre as Unidades de Conservação – UCs. Nos últimos anos perdemos 5,2 milhões de hectares das UCs e apenas duas novas foram criadas. Os índios, guardiões de nossas florestas biodiversas, têm sido alvo de ataques sistemáticos de setores produtivos, como mineração e agropecuária, de olho em mais terras para expansão de suas atividades. E não é só isso, mais de mil espécies da fauna brasileira correm risco de extinção.

Embora haja um consenso mundial de que a degradação ambiental é um sério impedimento para qualquer projeto de desenvolvimento econômico ou social, para alguns políticos, empresários e ruralistas, a preocupação ambiental é uma conspiração para impedir o país de crescer. Afinal, todo mundo sabe que para crescer é preciso destruir a natureza!

No Brasil este embate de forças têm gerado inúmeros conflitos e um preocupante ranking mundial: o país é campeão em mortes de ambientalistas em defesa de suas causas, em comparação com os demais países. O que vamos comemorar?

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