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Turismo com conteúdo de qualidade: impossível no Brasil?

A recente exibição de menosprezo, despreparo e futilidade do atual Ministro do Turismo e sua mulher, a miss bumbum,  no ambiente de trabalho é um crime de lesa-economia, lesa-cultura e lesa-pátria. Lesa meu coração. Há mais de 15 anos denuncio a total falta de profissionalismo do turismo na gestão pública, a imbecilidade criminosa com que o assunto é tratado, a fila de políticos fracassados que já foram Ministros “até que apareça algo melhor” a despeito de técnicos que poderiam contribuir. Eu estava animado com o ex-presidente da EMBRATUR, Vinicius Lummertz, que era do ramo e tem qualificação internacional, mas ele entregou o cargo porque era da “quota do PMDB” …. O artigo abaixo foi publicado em novembro de 2012 pela revista Brasilturis, mas o conceito básico do artigo já havia sido publicado outras vezes, há mais de 10 anos.

Por Rogerio Ruschel (*)

Em marketing caracteriza-se o turista como toda pessoa que se desloca de um lugar para outro para conhecer, ver, provar, fazer e sentir coisas que não tem no seu lugar de origem, como parte de seu tempo livre. E como as pessoas têm diferentes formações, experiências e expectativas, as atrações turísticas são tão múltiplas quanto os grãos de areia da praia de Jeriquaquara. Mas isso parece não valer no Brasil: os produtos turísticos mais vendidos são similares, pobres em conteúdo e nivelados por baixo: beber/comer/pegar-sol ou fazer compras – em moeda nacional ou estrangeira. Quer um exemplo? A principal atração turística e foco do investimento público em Porto Seguro, o berço do descobrimento do Brasil, qualificada como Patrimônio Histórico Nacional e Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO é a Passarela do Álcool…  Como um país pode ser respeitado se não se respeita?

Nossa posição de 6o. lugar no PIB e 82o. no IDH mundial em parte explica isso – e nossa história também. O turismo no Brasil é recente: de um passado no qual apenas a elite viajava (e preferia destinos internacionais) só nos anos 80 começou a ser democratizado com o trabalho de pioneiros como Guilherme Paulus, com a CVC. Esta democratização foi baseada na criação de “pacotes”, um modelo economicamente acessível, mas franciscano em qualidade. Vende-se assentos em ônibus ou aviões e camas em hotéis. Um modelo pobre se a referência for a prática em países onde turismo é uma atividade estratégica e o turista é tratado como um ser humano que precisa ser respeitado e um consumidor que precisa ser cativado.

Na maioria dos pacotes o acréscimo do ponto de vista cultural do turista é superficial: ele é apenas um visitante sem envolvimento com a comunidade, a história e a cultura do destino. (Isso sem contar que em muitos destinos é um depredador dos recursos naturais e sociais – mas isto é outra história). Na outra ponta, a relação do prestador de serviços também é de baixa qualidade: o negócio dele é explorar o turista e não o turismo. E facilitando tudo isso está o destino, onde gestores públicos e comunidades não se dão ao respeito – e se você visitar Gramado ou Paraty, por exemplo, vai entender o que é “se dar ao respeito”. É um modelo acessível, mas um desperdício de oportunidades para valorizar a cultura regional – em um pais que é campeão mundial em diversidade cultural!

O leitor da Brasilturis vai me dizer, com razão, que o turista brasileiro prefere sol&mar e que não está interessado em cultura; que vende-se o que o mercado procura; que a maioria dos destinos não oferece opções culturais; que passeios culturais devem ser oferecidos por receptivos e muitos já estão nos city-tours; que não vale a pena ter produtos sofisticados; que até mesmo estrangeiros quando vêm ao Brasil preferem sol&mar.

Tudo isto é verdade, precisamos aplaudir o esforço do trade porque em termos econômicos está funcionando: o setor faturou cerca de R$ 60 bilhões em 2011, gera renda para 2,2 milhões de pessoas na cadeia produtiva que mobiliza 52 setores e deve contabilizar 64 milhões de desembarques no país em 2012. A contribuição econômica é importante, mas isso não muda o fato de que continuamos a dar prioridade para turismo raso em conteúdo – sem falar nas viagens de compras, as de “contrabandinho”, contabilizadas como se turismo fosse.

Mas “o turismo deve propiciar cultura, além de lazer e entretenimento e seguir referências de sustentabilidade”, segundo palestrou o ministro Gastão Vieira na Rio+20. Pois o ciclo vicioso (porque incompleto) que praticamos infelizmente deve se perpetuar nos próximos anos para atender aos consumidores das classes C e D, a “nova classe média”. Já democratizado, o turismo no Brasil vai ser massificado por baixo e se nenhuma iniciativa for tomada vamos continuar tratando o turista como um assento em avião ou uma cama em hotel.

Reconheço que isto faz sentido econômico porque, segundo o Ministério do Turismo, o turismo doméstico responde por cerca de 85% atividade setorial e o marketing mais fácil é oferecer o que o mercado procura.

Mas mesmo assim pergunto: não seria a hora de ter um pouco de generosidade com o país e valorizar a qualidade na oferta turística, mesmo estando na “contra-mão” do mercado? Será MESMO que o turista brasileiro é avesso a cultura – mesmo vendo que exposições de arte atraem dezenas de milhões de pessoas todos os anos? Será MESMO que os destinos mais visitados não têm nada a oferecer além do básico? Será que incluir atividades culturais no pacote, hoje “opções” a serem compradas localmente, inviabilizaria o negócio? Será MESMO que não compensaria aos destinos qualificarem suas atrações e tratarem seus visitantes com respeito? Será MESMO inviável oferecer ao turista, no pacote, folhetos caprichados sobre nossos patrimônios ambientais e culturais, alguns reconhecidos como de valor universal pela UNESCO? Será MESMO que destinos desconhecidos mas de alta relevância cultural e ambiental como por exemplo Inhotim, em MG, não merecem ser incentivados? Custa “caro demais” valorizar nosso patrimônio e cultura?

Talvez as agencias de viagens devessem assumir o desafio de propor um up-grade qualitativo nos pacotes por uma questão estratégica, por pelo menos três razões: 1) confiar o futuro do negócio na venda de produtos básicos pode ser perigoso a longo prazo porque significa competir por preços, exige escala, tem altos custos operacionais e perpetua um modelo pobre; 2) porque as agencias precisam justificar sua utilidade junto ao consumidor que cada vez mais tem acesso ao “básico” pela internet; 3) e porque produtos mais sofisticados, mesmo os de nicho mercadológico, atraem viajantes freqüentes, de maior poder aquisitivo e possibilitam margem de lucro maior. (Existe uma quarta razão, mas que provavelmente só vai ser reconhecida como importante tarde demais: o compromisso do profissional de turismo, enquanto cidadão, de ajudar a preservação e o desenvolvimento sustentável dos destinos).

Agregar qualidade de conteúdo na oferta de pacotes ajudará a resolver outro problema: segundo o Ministério do Turismo, 65,4% dos turistas em visita ao Brasil não utiliza serviços de agências de viagem. E além do sol&mar, natureza, ecoturismo e aventura são as motivações de 27% de estrangeiros que vêm ao país, Segundo o Ministério do Turismo – produtos hoje oferecidos como nicho e apenas por agencias especializadas de pequeno porte, do Brasil e do exterior.

Claro que estas reflexões estão na contra-mão da luta diária dos profissionais de turismo e respeito suas decisões. Mas em algum momento vamos ter que ir além do lazer trivial no turismo brasileiro. E prefiro acreditar na possibilidade de que esta causa sensibilize algum leitor com capacidade de liderança e iniciativa que pense que o turismo só se completa quando promove o crescimento do turista.

(*) Rogerio Ruschel é jornalista e consultor especializado em sustentabilidade, autor de 5 livros e 27 estudos sobre o tema e autor do blog de enoturismo In Vino Viajas – http://invinoviajas.blogspot.com.br/

 

 

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